Sempre gostei de Copa do Mundo. Mesmo quando nosso time era ruim. Ruim de doer como a seleção do Lazzaroni. Copa do Mundo era sinônimo de mudança, movimento. Tínhamos o álbum com as figurinhas, a nova programação da TV, a rotina de aula e trabalho que se dobrava aos caprichos da bola e mais toda a sorte de "novidades" advindas daquele evento espetacular. Olimpíada também é bacana, mas... Copa sempre foi muito mais bacana. Foi. Não é mais.
Concordo que ainda é muito cedo para mim afirmar de forma tão categórica que vou simplesmente ignorar a Copa africana. Se bem me conheço, sei que vou acabar assistindo aos jogos porque gosto muito de futebol. E a Copa, enquanto evento esportivo, é um deleite. Mas aquele entusiasmo que tive por aquela mágica e inesquecível seleção do Telê de 1982, a simpatia que tive por aquela seleção arranca-toco do Parreira de 1990 e a admiração que surgiu por aquela seleção unidos-venceremos do Felipão de 2002 sumiram. E não são poucos os motivos que me levaram embora este encanto que tinha pelo escrete canarinho.
Tudo começa pela convocação. Desde o dia que o treinador assume o comando do time até o dia em que ele chama quem vai jogar são feitas bilhões de especulações. Até aí nada fora do normal. É curioso tentar adivinhar o que pensa o comandante a fim de "antever" suas escolhas. O que não dá para suportar mais é ver a insistência doentia da "imprensa do eixo" (leia-se Rio/Sampa) forçando a barra para que fulano ou beltrano sejam convocados. No Rio, imploravam pelo Adriano. Em São Paulo, eram os "mininos da Vila". Segundos depois da definição das convocações, eles já inundavam a internet com milhares de manchetes combinando os verbos VETAR, CORTAR e BARRAR aos nomes dos seus queridos protegidos. Como se Dunga tivesse faltado com alguma obrigação. Ridículo e lamentável.
Aliás, nesse ponto em especial, achei soberba a declaração do técnico do Santos, o Dorival Júnior. Perguntado - de forma tendenciosa logicamente - sobre o assunto ele elogiou as escolhas do seu colega de profissão e disse que a garotada de lá ainda tem muito chão pela frente e que oportunidades não lhes faltarão. Opinião profissionalíssima, de quem enxerga longe. Longe o bastante para entender o quão pode ser prejudicial para a vida do atleta uma decisão prematura. Está aí um exemplo de um comandante de verdade, que sabe como passar adiante a lição valiosa da experiência de vida.
Passado o "inferno" da convocação, vem o martírio dos programas de esportes na TV. A partir deste dia eles passarão semanas transmitindo seus debates nas famigeradas mesas-redondas lotadas de "especialistas" analisando e discutindo - ferrenhamente - a lista dos convocados. É quando surgem os primeiros "profetas do acontecido" que, mais tarde, também aproveitam para aparecer dizendo "Ó, viu só ? Eu disse, a gente perdeu porque o FULANO não foi !". Não sei como a televisão de antigamente sobrevivia sem estes debates intermináveis de hoje... Mas pra isso serve o controle remoto. Basta zapear atrás de um filme qualquer e pronto.
O que falta para este time é algo que também já faltava para o último, a fiasquenta seleção de 2006 que foi humilhada por Zidane e Cia. : A falta de empatia com o torcedor. Nós costumávamos conhecer os jogadores. Hoje, por exemplo, se eu disser que o RAMIREZ foi convocado, a grande maioria de vocês vai franzir a testa e perguntar "QUEM ???". E a falta de empatia começa lá pelo técnico. Além do Dunga não ser um primor de simpatia, tem também o fato de a gente não conseguir enxergar consistência no trabalho dele.
Não se identifica nenhuma característica que indique que uma linha de raciocínio está sendo seguida por mais estapafúrdia que seja. Durante as preparações para o torneio ele testou uma pá de jogadores, um sem-fim de esquemas, montou e desmontou times, etc, etc. E tudo isso para culminar em uma convocação sui-generis, sem sentido, cheia de gente mediana enquanto um jogador de qualidade inquestionável, como Ronaldinho Gaúcho, é relegado ao papel de "suplente".
Assim não dá vontade de torcer, botar bandeirinha no carro, comprar camiseta e tudo o mais. Quando se tem um grupo fechado e definido desde o início podem até haver trocas, substituições, enfim, aparas de arestas mas a base sempre se mantém. É assim quando se tem um objetivo definido. É desse jeito que se forma uma "corrente prá frente", quando um grupo cria uma identificação, um vínculo com seu torcedor.
Esta seriedade confere confiabilidade ao grupo. Mas como somos brasileiros, isoneiros, malemolentes e hiper-craques, não precisamos de nada disso ! Esse negócio de seriedade, treinar duro e se preparar é coisa de alemão. Aqui é lugar de sambinha no ônibus e dribles bonitinhos ! Pois bem, veremos.
Mas nenhum destes motivos é tão perturbador ou decisivo quanto o último e, portanto, o mais contundente de todos. Falta SANGUE na seleção. Falta TRANSPIRAÇÃO, AMOR, ENTREGA, PAIXÃO e sobretudo ORGULHO por estar vestindo a mítica amarelinha. A seleção brasileira, antes panteão de deuses da bola, hoje não passa de uma vitrine de luxo, onde os modelos mais caros são postos à venda para quem puder bancar. E é nisso que pensam aqueles que vão estar lá.
Eu explico - e exemplifico. Voltemos um pouco no tempo, mais precisamente em 1982. Copa do Mundo da Espanha, estádio Sarriá. A Itália vencia o Brasil por 2 x 1. Para nós, bastava um empate e a classificação seria nossa. O time da Itália, fortíssimo, tinha em sua meta o instransponível goleiro Dino Zoff. Neste instante, Júnior rola a bola para o incomparável Paulo Roberto Falcão que, com 3 toques na bola, tira toda a defesa italiana da jogada para na sequencia desferir um canhonasso indefensável no canto direito de Zoff. Gol. Golaço (1min 53seg do vídeo abaixo).
Mas não foi só o gol milagroso que fez o nosso coração explodir de emoção. Não foi a linda jogada do Falcão que nos fez mergulhar naquela histeria emocional. O que nos levou às lágrimas, num mixto de furor, alegria e êxtase foi ver no rosto do nosso guerreiro verde-amarelo aquela expressão de quase raiva, de gana, de choro, de emoção genuína e pura, capaz de mover qualquer obstáculo. Naquele momento, nada poderia ser maior.
Braços abertos, músculos em riste, Falcão corria como se fosse abraçar cada um de nós. Enquanto a gente, sem palavras, só fazia gritar, gritar, gritar e chorar sem conseguir explicar porquê. Ainda bebíamos desse turbilhão de sentidos quando Paolo Rossi nos calou de forma amarga naquela tarde de sol. Perdemos sim. Mas caímos de pé, lutando como se deve lutar. No suor, no sangue, na paixão, no amor. Nunca mais apaguei da minha mente a expressão que Falcão trazia no rosto naquele momento.
Agora, meus amigos, façamos um pequeno exercício mental e tentemos lembrar quando foi a última vez que vimos, em algum jogador canarinho, tamanha demonstração de entrega, de amor, de paixão.
Voltaremos a ser canarinhos de verdade quando reaprendermos a sentir isso. Felipão nos devolveu um pouco dessa chama, mas nós a deixamos minguar novamente. Torço muito para que ela volte a brilhar. Ainda quero assistir à uma Copa sentindo isso de novo.
Um comentário:
passe de bola sensacional!!!
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