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segunda-feira, 28 de abril de 2008

As origens do "Golpe do Baú"

Nos dias de hoje uma das coisas que mais vemos por aí nos meios de comunicação são casos de modelos/atrizes/dançarinas pleiteando na justiça exames de DNA para provarem que os donos das suas barrigas são astros do rock, políticos, jogadores de futebol etc. (ou seja, caras ricos) para poderem exigir mais tarde uma polpuda pensão e ainda ganhar uns minutinhos de fama. Algumas até programa na TV ganharam...

O que poucos sabem é que, aqui no Brasil ser vadia assim já é uma prática bem antiga, histórica eu diria. E o precursor desta onda foi o nosso mui amado Imperador D. Pedro I. Precursor por que foi dele o caso mais rumoroso daquela época e que, se tivesse acontecido hoje, daria páginas e páginas de jornais, revistas, tablóides e de quebra alguns bons minutos do horário nobre de uma grande emissora de TV.

Tudo aconteceu em 1828. Como era de conhecimento público, nosso primeiro monarca tinha um grande problema em manter o pinto dentro das calças. Ele foi um grande conquistador de corações e exímio fazedor de filhos, bastando dizer que, em quinze anos de vida sexual ativa, D. Pedro I foi pai de 28 filhos, dez em seus dois matrimônios e dezoito fora dele. Até a quituteira negra do Palácio de São Cristóvão teve a honra de uma gravidez real, como também uma freira, na Ilha Terceira !

Entretanto, o caso mais rumoroso e caro foi, sem dúvidas o de Dna. Clemência Saisset. Em 1828, a rua mais importante do Rio de Janeiro era a do Ouvidor, local onde existiam as casas comerciais mais refinadas da cidade, em geral de propriedade de franceses. D. Pedro I, quando vinha de São Cristóvão para o Paço da Cidade, na atual Praça XV, passava com sua carruagem por ela e, com certeza, observava o animado comércio e, principalmente, as modistas francesas ali estabelecidas, com as quais não poucas vezes teve casos amorosos. Ultimamente, sua atenção estava voltada para a casa n°. 98, defronte à Rua Nova do Ouvidor (atual Travessa do Ouvidor) um fino estabelecimento de modas e papéis pintados de Bernardo Wallenstein & Companhia.

Mas sua atenção não era dirigida às roupas ou papéis de parede ali exibidos, nem era a figura do solteirão Bernardo ou de seu sócio, Pierre Joseph Félix Saisset, mas sim à bela figura da esposa do segundo, Dna. Clemência Saisset, modista e bela mulher de vinte e cinco anos e já mãe de dois filhos, o último deles nascido em março daquele ano. D. Pedro I percebeu que a jovem lhe correspondia e concebeu engenhoso plano para conquistá-la. Contratou Pierre Félix para colocar papéis de parede em todo o Paço de São Cristóvão. Enquanto o marido colocava os papéis nos salões imperiais, D. Pedro colocava-lhe chifres !

De certa feita, Pierre Félix retornou mais cedo para casa e veio a encontrar D. Pedro I totalmente pelado em sua cama! A esposa o convenceu que nosso imperador havia sofrido uma queda de um cavalo defronte à casa, e Dna. Clemência, fazendo jus ao nome, o recolhera e despira (tudo no maior respeito, é claro...) para aplicar uma "massagem de socorro". Sei, sei... Não deu para a Dna. Clemência pensar em nada melhor na hora. Não resisti em imaginar a cena de D. Pedro peladão dizendo "Pois é, eu tava passando por aqui daí pensei... Acho que vou lá na casa do Piérre dar prá ele...". O marido, que era corno mas não era burro, fingiu acreditar pois logo percebeu o quanto poderia lucrar com a situação. D. Pedro inclusive o autorizou posteriormente a colocar uma placa na fachada da casa, indicando o negócio de papéis pintados ser “Fornecedor da Casa Imperial”, motivo de muita gozação entre os vizinhos.

Em novembro, Dna. Clemência engravidou de D. Pedro e, para o escândalo não aumentar, no dia 30 de dezembro de 1828 o casal Saisset partia para a Europa, não sem antes ter todo seu negócio indenizado a peso de ouro pelo Imperador, recebendo Dna. Clemência, dentre muitos presentes e dádivas, um saque de setenta e cinco mil francos e um título de pensão vitalícia. De quebra, D. Pedro ainda prometeu pagar a educação do pimpolho com mesada régia, às custas dos contribuintes. Em Paris, às seis horas da tarde do dia 23 de agosto de 1829, à rua Bergère, n°. 17 nasceu um menino, que passou a chamar-se Pedro de Alcântara Brasileiro, oficialmente filho de Pierre Saisset, antigo oficial de cavalaria francesa, de 32 anos e de Dna. Clemência Saisset.

Durante a gravidez da esposa, tanto o Sr. Pierre, bem como Dna. Clemência endereçaram muitas cartas ao Imperador e a seus procuradores, todas tratando de dinheiro, é claro. Os Saisset depois se mudaram para a Avenida de Sceaux, n°. 2, em Versailles, onde granjearam fama na sociedade local, tendo o casal feito larga propaganda do filho tido com o Imperador do Brasil, fato que o próprio Sr. Saisset alardeava como de grande mérito. Costumava Dna. Clemência exibir aos amigos e visitantes os presentes oferecidos à ela pelo Imperador do Brasil, em especial um papagaio falante, bem como toda a correspondência amorosa de ambos.

Entretanto, a renúncia do Imperador ao trono do Brasil, ocorrida a 7 de abril de 1831, bem como a morte precoce de D. Pedro, em Lisboa, a 26 de setembro de 1834 interromperam a remessa de dinheiro ao casal, fato que não passou sem poucos protestos. Após alguns anos, a Imperatriz viúva, Dna. Maria Amélia, concedeu uma pequena pensão à criança, por alguns anos. Pedro de Alcântara Brasileiro foi educado num dos melhores colégios de Paris, o liceu “Louis le Grand”, e se bacharelou em letras. Casou-se e foi pai de duas meninas, indo afinal residir em San José de Guadalupe, São Francisco, Califórnia. Em outubro de 1864 recebeu a notícia do falecimento da mãe, morta aos 61 anos.

Só então, por meio do advogado da família, recebeu uma pasta de documentos e veio a saber que era filho do ex-Imperador do Brasil. Pedro de Alcântara enviou então uma missiva ao seu meio-irmão brasileiro, nada mais nada menos que o Imperador D. Pedro II, pedindo uma ajuda de custo para a educação de seus dois filhos, haja vista que sua mãe, a finada Dna. Clemência, havia torrado toda a fortuna da família em luxos e futilidades. O Imperador não retornou a correspondência e o assunto morreu. Alguns anos depois, em 26 de agosto de 1877, quando D. Pedro II esteve em Londres, um dos filhos de Pedro de Alcântara, o Capitão de Fragata Ernest de Saisset tentou se encontrar com o Imperador, sem sucesso. E tudo ficou assim.

É, como dá prá ver, de lá para cá poucas coisas mudaram.

P.S: Alguém aí também lembrou do nome "Calheiros" enquanto lia o texto ??

2 amigos comentaram:

Diogo disse...

Excelente texto... só não entendi qual é a do Calheiros (me perdoe a ignorância...).

Mystic Horseman disse...

Vou refrescar sua memória amigo leitor : Lembra que o nosso querido senador Calheiros teve uma filha com sua amante (a Mônica Veloso) e que quem pagava a conta da pensão éramos nós, contribuintes ? Tal como D. Pedro. Que escola, hein...

abraços e obrigado pela visita

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